Preâmbulo
O presente texto tem a finalidade de demonstrar como a exitosa trajetória do Grêmio Esportivo Maringá (GEM) está intimamente relacionada com o processo de construção do município de Maringá, uma das capitais do complexo cafeeiro do Norte do Paraná, e contribuiu decisivamente para a formação da identidade coletiva de sua população, composta por migrantes oriundos de todos os quadrantes do território nacional e por imigrantes de diferentes etnias.
O fenômeno urbano no complexo cafeeiro
Em 1961, quando se formou o GEM, o município de Maringá contava 10 anos de fundação, formalizada pela Lei Estadual 790/51, e nove anos de implantação, efetivada em 1952 pela posse do primeiro prefeito e dos legisladores que compuseram a Câmara Municipal.
A história do núcleo citadino iniciou-se alguns anos antes, no seio de um projeto mais amplo de colonização, patrocinado pela Companhia de Terras Norte do Paraná. O ambicioso projeto de colonização abarcava um extenso território, para o qual estava prevista, de forma articulada com a expansão da fronteira agrícola, a implantação de núcleos urbanos de pequeno porte e, a uma distância bem calculada, a edificação de cidades que exercessem a condição de polo regional.
Antecipada por Londrina, que havia sido fundada em 1934, Maringá foi planejada para ser a segunda capital dessa vasta região. Como diferencial para o planejamento de Maringá, a empresa colonizadora encomendou um projeto urbano arrojado e sofisticado, baseado na concepção de cidade-jardim.
Para atrair interessados, a colonizadora veiculou maciça propaganda em todo o país, associando as oportunidades de prosperidade oferecidas pela região ao imaginário, herdado da memória religiosa, da “terra prometida”. Por causa da economia cafeeira, também mesclou-se a imagem do Eldorado, lenda da colonização espanhola. No caso, tratava-se do café, o ouro verde. Dizia um panfleto de propaganda que não havia, aqui, minas de ouro, mas “se faz ouro de tudo”.
O significado da palavra prosperidade poderia ser diferente para os muitos que atendiam ao chamamento. Muitos sonhavam com a sua propriedade rural e com as possibilidades de ganho que a cafeicultura oferecia. Havia profissionais liberais que viam amplas possibilidades de atuação em um mercado a ser desbravado. Comerciantes e empreendedores de diferentes ramos tinham campo para explorar. Por causa da clientela de suas empresas, comerciantes, em pouco tempo, converteram-se em agentes políticos. Outros diversificaram seus empreendimentos e desenvolveram atividades industriais. Para a população de baixa renda, era a oportunidade de uma ocupação profissional digna e, quem sabe, de ascensão social.
Se os resultados alcançados não foram os mesmos para todo mundo, o universo das possibilidades era avistado dessa perspectiva. No mínimo, a busca da dignidade para si e para a família era comum e parecia concreta para quem deixava outras localidades e se fixava em Maringá. Não fosse assim, não seriam enfrentadas as privações existentes.
Vistas as coisas dessa maneira, a terra prometida existia, mas não estava pronta. Precisava ser conquistada. Não corria leite nem mel; as riquezas não estavam disponíveis a olho nu. Dificuldades não faltavam: mata virgem, ausência de infraestrutura etc. Não obstante tantas carências, as oportunidades, mediante o trabalho árduo e infatigável, eram reais para as inúmeras correntes populacionais que para cá se dirigiram. Além de tudo, era sedutor participar de um grande projeto. Em vez de encontrar tudo pronto, por que não crescer com a cidade?
O Eldorado cafeeiro
O processo de colonização do interior do Paraná mudou radicalmente a estrutura econômica, demográfica e política do estado. Entre 1940 e 1960, de acordo com dados do IBGE, a população paranaense saltou de 1.236.276 para 4.277.763 habitantes. O censo de 1970, ainda confirmando o impressionante ritmo de crescimento, registrou 6.929.868 habitantes.
No mesmo período, na região onde se localiza Maringá, a população cresceu no seguinte ritmo: 1940, 104.278; 1950, 517.595; 1960, 1.039.189; 1970, 1.466.858. Segundo a literatura especializada, essa região foi uma das mais dinâmicas do país em termos de absorção de migrantes.
No censo de 1950, Maringá consta como distrito do município de Mandaguari, que seria desmembrado pela Lei Estadual 790/51. Naquele censo, a base do distrito de Maringá tinha 38.588 habitantes, mais de duas vezes maior do que a população da sede do município, estimada em cerca de 16 mil habitantes. Em 1960, o município de Maringá abrigava 104.131 habitantes. Desses, 47.592 eram residentes na base urbana. Em 1970, em uma população global de 121.374 habitantes, a maioria estava fixada na área urbana: 100.100 habitantes. Nesse momento, Maringá estava em vias de se tornar o terceiro município mais importante do Paraná, condição que ostenta até os dias atuais.
Na relação econômica, foi o processo de expansão do complexo cafeeiro que sustentou um crescimento tão intenso da população. Mais do que isso, conforme a literatura especializada, o avanço do complexo cafeeiro não significou apenas a introdução de uma atividade econômica nos limites territoriais do Paraná. Representou o início de uma nova fase no processo de desenvolvimento do estado, uma vez que passou a proporcionar efeitos dinâmicos para o conjunto da economia, consubstanciando-se em expressivas taxas de crescimento e diversificação do setor agrícola, industrial e terciário, em razão da acumulação de capital que passou a gravitar em torno dessas atividades econômicas.
Uma amostra dessa pujança pode ser medida pelos indicadores de distribuição regional do valor agregado fiscal do Paraná em 1975, divulgados pelo Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social), criado dois anos antes. A mesorregião Norte Central, que abarcava Maringá e Londrina, detinha a proporção de 25,33%, a maior de todo o estado. Para efeito de avaliação, destacam-se dois parâmetros. Primeiro, Curitiba e região metropolitana respondiam por 19,94%. Segundo, eram vividos os estertores da hegemonia do complexo cafeeiro em 1975. Seu auge havia ocorrido na década de 1950. Mesmo assim, garantia a liderança da região Norte Central.
A solidez do legado da aventura pioneira
Na década de 1960, Maringá era a tradução da experiência bem-sucedida do processo de colonização do Norte do Paraná e das mudanças que ocorreram no estado em tão pouco tempo. Quando tudo começou, como diziam os pioneiros, o vilarejo parecia uma paisagem de filmes do velho oeste dos Estados Unidos. Muito cedo, contudo, Maringá converteu-se em um centro urbano desenvolvido.
Na origem, no dizer de um cronista: “Ninguém era filho da terra, nem havia tradições a zelar. A aventura era o traço de união entre todos”. Outro cronista adicionou: “Ninguém conhecia ninguém. Ninguém perguntava por ninguém. Forjava-se uma nova civilização. Teias de aranha eram varridas a golpes de audácia. Quando se afirma que o aventureiro fundou o Norte do Paraná, é preciso distinguir entre o aventureiro que fez uma aventura e fugiu e nós outros, que, nas nossas profissões, fizemos a aventura e deixamos a solidez do ato praticado para o julgamento da posteridade”.
Obviamente, nas duas primeiras décadas, o censo não podia registrar pessoas adultas que houvessem nascido no território do jovem município. De sorte que a aventura pioneira foi protagonizada por migrantes oriundos de diferentes regiões do país, que vieram em busca da terra prometida ou do Eldorado. Destacam-se, sobretudo, migrantes com origem nos diferentes estados do Nordeste, em Minas Gerais e em São Paulo, sem desconsiderar um contingente menor oriundo do Paraná e dos demais estados do sul do país. A eles se somaram imigrantes de diferentes nacionalidades, com participação mais pronunciada de japoneses, italianos, portugueses, alemães e árabes.
Quais eram os vínculos que contribuíram para a afirmação de uma identidade e de um sentimento de pertencimento ao município? Os sociólogos ensinam que a identidade define uma coletividade como tal. Sua elaboração depende da forma como se articulam objetivos práticos a valores que dão sentido à existência do coletivo em questão. Não se trata de uma identidade essencial, inerente ao coletivo ou preexistente às suas práticas. Essa identidade ganha corpo em instituições determinadas, nas quais é elaborada uma história comum que lhe dá substância e são reguladas práticas coletivas que a consolidam e a atualizam.
A resposta pode levar a um mapeamento extenso e complexo. Indicamos que o sentimento de comunidade em construção foi decisivo para que o município cumprisse a sua vocação, presente no planejamento encetado pela companhia colonizadora, de polo e capital regional. Foram várias as conquistas em poucos anos: a emancipação municipal (1951), o estabelecimento da comarca judiciária (1954), a instalação da diocese católica (1957), a implantação das primeiras faculdades (1961, 1966 e 1967) e da Universidade Estadual de Maringá (1970).
Sem dúvida, houve ação eficaz e eficiente de agentes públicos e privados, assim como de instituições políticas, empresariais e comunitárias. Consideramos, entretanto, que poucas atividades tiveram tanto potencial de galvanizar a identidade e o sentimento de pertencimento quanto a epopeia do futebol profissional, protagonizada, desde 1961, pelo Grêmio Esportivo Maringá, sobretudo porque foi igualmente bem-sucedida.
Grêmio Esportivo Maringá: uma alegria sem igual
Aliados à pujança do município, dois fatores contribuíram para que o nome de Maringá fosse divulgado rapidamente em todos os quadrantes do país. O primeiro, evidentemente, é a canção em que se inspira, composta por Joubert de Carvalho, que era muito popular na época de seu lançamento e estava enraizada na memória daquela geração. O segundo é o sucesso do time profissional, o Grêmio Esportivo Maringá. Um dos primeiros versos da canção diz: “Antigamente uma alegria sem igual/ dominava aquela gente da cidade de Pombal”. Podemos dizer que o vínculo da população do município de Maringá com o time de futebol era regido por uma sensação de “alegria sem igual”.
Ao longo da década de 1960, o Grêmio Esportivo foi campeão estadual duas vezes, em 1963 e em 1964. Além disso, foi vice-campeão estadual em 1965 e em 1967 e terceiro colocado em 1966. Em 1968 e em 1969, não obteve as mesmas posições no certame paranaense, mas voou alto em disputas mais amplas, conquistando o Torneio Centro-Sul (1968) e o Torneio dos Campeões (1969). Entre essas competições, ainda confrontou selecionados nacionais da Romênia e da União Soviética, em memoráveis jogos amistosos realizados no estádio regional Willie Davids.
Foi, portanto, uma década inteira de mobilização de apoiadores e da atenção dos munícipes. A isso soma-se, ainda, o fator regional. O futebol profissional também contribuiu para que Maringá se consolidasse como capital regional, uma condição bem assentada em sua pujança econômica e em sua capilaridade política. Nos certames mais amplos, os moradores da ampla região em que se situa Maringá tornaram-se torcedores do Grêmio.
Essas glórias esportivas são bem representativas da força econômica do complexo cafeeiro. Naquela década, constata-se, ainda, um título estadual do Londrina, time da outra capital regional, e de uma agremiação de Cornélio Procópio, município vizinho de Londrina. Em um período em que o futebol do interior mantinha disputa competitiva e equilibrada com os times da capital, a mais vitoriosa equipe das regiões recentemente colonizadas era o Grêmio Esportivo Maringá, que fazia jus ao epíteto de ‘Galo do Norte’.
Se Maringá e Londrina eram as capitais regionais e as suas dinâmicas específicas somavam-se para expressar a força da economia do interior do estado, os seus times estabeleceram uma acirrada rivalidade, que tinha vazão no chamado clássico do café. Respeitadas as proporções, é possível comparar a rivalidade encerrada por esse clássico com a de outros de expressão nacional, como Corinthians e Palmeiras, Flamengo e Fluminense, Grêmio e Internacional, Atlético Mineiro e Cruzeiro.
Outro campo de rivalidade dirigia-se aos times da capital do estado. Por causa das dinâmicas próprias das grandes áreas recentemente colonizadas, o Paraná conviveu, por muito tempo, com uma agenda de integração entre três grandes regiões. A primeira era o chamado Paraná Tradicional, que abarca Curitiba, Paranaguá, Ponta Grossa e os Campos Gerais. As outras duas regiões eram o Norte e o Oeste do estado, que viveram intensa colonização a partir das primeiras décadas do século XX.
Pauta de sucessivos governos, a integração era uma necessidade premente, sobretudo nos processos produtivos. A falta de infraestrutura e de logística fazia com que o Norte do Paraná, por exemplo, tivesse uma dinâmica própria de escoamento de produção, prioritariamente dirigida ao porto de Santos, com o qual havia interligação ferroviária, e não ao porto de Paranaguá, razoavelmente inviável pela ausência de rodovias.
No que diz respeito ao universo futebolístico, as populações regionais não se identificavam com os times da capital, como acontece, por exemplo, no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. O sucesso dos times do Norte do Paraná reforçava esse sentimento de independência e a falta de identificação com os times de Curitiba. Em Maringá, portanto, acentuava-se a identificação com o Grêmio Esportivo.
Na década de 1960, não havia as possibilidades de entretenimento que conhecemos atualmente, sobretudo as disponíveis nas mídias eletrônicas e digitais. A radiofonia era uma mídia potente no período, mas ela própria interagia com o universo esportivo, nutria-se dele e o alimentava. O lazer era presencial e analógico. Assim como a política levava multidões aos comícios realizados em praças públicas, os estádios de futebol exerciam inegável atração aos aficionados pelo esporte bretão.
Maringá vivia intensamente a atmosfera que circundava o seu time e obtinha, em retorno, a felicidade promovida por seus êxitos. Mais do que pertencer a uma coletividade que se reunia para celebrar um time de futebol, tratava-se de uma agremiação que representava uma cidade recentemente implantada. O âmbito esportivo se entrelaçava com a identidade cívica, estimulando o orgulho de ser maringaense.
Essa relação era compatível com a identidade que o povo fazia de si próprio, por ser protagonista de uma história épica, capaz de construir, em pouco tempo, uma nova civilização na região. Seu time de futebol, além de exercer a hegemonia no Norte do Paraná, território do complexo cafeeiro, disputava, palmo a palmo, o comando com os times da capital.
Naquele período, em resumo, a experiência exitosa do futebol profissional contribuiu decisivamente para mobilizar a identidade de pertencimento ao novo município e o orgulho de ser maringaense. Por isso, o reconhecimento desses títulos, reivindicado pelo presente dossiê, faz justiça ao Grêmio Esportivo e é um prêmio à coletividade de Maringá.
Reginaldo Benedito Dias é professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual de Maringá. Doutor em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista – Unesp.
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