Últimas Publicações / Maria Dalva Drugovich Ponciano se despede

A pioneira maringaense faleceu hoje, dia 13 de abril de 2021, aos 94 anos.  Crônica -  Dalva e seus natais com as crianças carentes  

São quase setenta anos no mesmo endereço da avenida Brasil. Maria Dalva Drugovich Ponciano e Nestor Ponciano se casaram no dia 12 de junho de 1946 na paulista Viradouro, cidade natal dela, e vieram para Maringá em 1948, onde seu pai Antonio Drugovich, a mãe Maria Cratel Drugovich e os irmãos já estavam desde 1945.

     Antonio Drugovich comprou terrenos na Vila Operária e montou uma oficina. Já Nestor, também adquiriu um terreno e abriu a Indústria de Móveis A Caprichosa, vizinho do sogro. Além de fabricar, era ele quem desenhava os móveis. Um ótimo marceneiro e um artista de mão cheia.

     Na antiga casa de madeira, que foi sendo ampliada com o tempo – o casal teve seis filhos -, a lembrança de Nestor através dos móveis de madeira de lei que fabricou e desenhou está em todos os cômodos. Armários, cristaleira, estante, guarda-roupas, camas, mesas, poltronas, cadeiras. Finos e arrojados entalhes na madeira, simetria dos desenhos, criatividade e precisão, beleza nos detalhes. Nestor faleceu no dia 5 de janeiro de 1990. Dalva tem uma história para cada um daqueles móveis. Na cristaleira, quase uma centena de xícaras, uma coleção de décadas. Ela pega uma que garante ter 200 anos. Teria pertencido ao avô do marido.

     Aos 90 anos, Dalva é ativa nas redes sociais, antenada nos acontecimentos, tem celular e whatsApp e reclama das fotos e vídeos cômicos que o filho Nestor Evandro lhe envia: “Peço pra ele não me mandar isso, não acho graça, falo pra ele conversar comigo em vez de mandar essas coisas”, critica, trazendo junto um sorriso compreensivo. A cachorrinha Poliana não lhe dá sossego, sempre lhe pedindo atenção. Já o gordo cão Drugo, 18 anos de idade, fica esparramado na varanda e só se levanta se Dalva o chamar ou quando Poliana o incomoda muito.

     Desde que chegou em Maringá, Dalva distribui presentes para as crianças em dezembro. Ininterruptamente. O Natal da Criança Pobre começou com trinta crianças em 1948 e chegou a atender 4 mil em 1996. “Tive até taquicardia, fiquei dois dias internada de tanta preocupação, mas graças a Deus deu tudo certo.” Os muitos amigos de Dalva e Nestor sempre participaram das campanhas com doação de brinquedos e outros itens para a festa, que era realizada nas dependências da A Caprichosa. O bolo e as roscas ela ganhava da Padaria Riachuelo, os refrigerantes da Indústria de Bebidas Ouro Verde e da Virgínia. Com as doações de pacotes de macarrão, latas de goiabada, entre outros alimentos, conseguia montar a cesta de Natal para as famílias. Ela lamenta não conseguir se lembrar de todos os comerciantes que ajudavam. Dos políticos, se recorda do apoio de Ary de Lima e de Odilon Túlio Vargas. Da Operária, a campanha foi para toda a cidade e chegou até a municípios da região, com distribuição em creches e entidades para menores.

      O Natal da Criança Pobre da Dona Dalva da A Caprichosa, realizado no dia 23 ou 24 de dezembro, era tão famoso que crianças de famílias de boa condição financeira também entravam na fila para receber presentes: “A gente não ligava, criança é criança, não é? Elas vinham mais pela festa. A loja e a rua ficavam lotadas. A gente pedia para o pessoal da Prefeitura pôr cavaletes para interromper o trânsito.” Em 2016, ainda que modestamente, ela fez a distribuição. Junto aos parentes e amigos conseguiu vários sacos e sacolas de caminhõezinhos e bonecas. Desta vez, pediu para amigas ajudarem na entrega e ficou na porta da sua casa distribuindo pão feito em casa com mortadela para quem passava na calçada. Para crianças e adultos.

     Dona de casa, balconista da loja e até motorista do caminhão fazendo entrega de móveis, a irrequieta Dalva também lecionou. Foi na Escola Profissional Feminina de Maringá, fundada em 1957 por Neo Alves Martins, que funcionava na Escola Anita Garibaldi, ao lado do Ginásio Estadual da Vila Operária, hoje João XXIII. Amiga de Ambrosina, como era chamada Dona Noca, esposa de Neo Martins, Dalva foi convidada para dar aulas de corte e costura. A escola também contava com cursos de tricô, crochê e confeitaria num total de vinte funcionários entre professoras e serventes. Com a morte de Neo Martins, a escola foi desativada, mas a vontade de Dalva de continuar lecionando continuou. A partir dos anos 60, lecionou na Escola Osvaldo Cruz até se aposentar. Nesse período, em 1973, cursou pedagogia na UEM, na primeira turma da história do curso na instituição.

     Na sala, sobre a bela mesa feita por Nestor, álbuns antigos. Dalva folheia lembranças. Fotografias e recortes dos antigos jornais de Maringá, O Jornal e a Folha do Norte. Ela e o marido com os filhos pequenos, jovens; em Foz do Iguaçu, com o casal de amigos Flávio Pasquinelli, já falecido, e Alaíde; no sítio da família na Estrada Guaiapó. Reportagens dos jornais de inaugurações, personalidades, o desenvolvimento de Maringá nos anos 60, e ao lado dos recortes, legendas que ela escrevia à mão.

     A colagem no álbum dos jornais foi interrompida no início dos anos 70. Diz que ficou desencantada com tudo relacionado à política e à administração pública. A decepção atendia pelo nome de Haroldo Leon Peres, o maringaense que chegou a governar o Paraná por sete meses, deixando o cargo em dezembro de 1971 por suspeita de corrupção. Até o dia de sua morte, em 16 de setembro de 1992, Leon Peres alegou inocência. Dalva diz se arrepender de não ter continuado a colar recortes. Em 2016 votou para prefeito e vereador e diz que em 2018 voltará às urnas para escolher o presidente, o governador, o senador e os deputados.

     O celular toca, Dalva atende. A diarista fala algo sobre o serviço. Numa estante, fotos dos Ponciano nos anos 60, 70, 80, 90... Na parede, na passagem de uma sala para outra, um quadro com a foto de Dalva antes de se casar, junto com a mãe e as irmãs. Poliana impossível, querendo ir para o quintal, para a rua. Drugo largado no cimento com o sol da manhã esquentando sua pele. Agora, a dinâmica Dalva vai cuidar da casa. Mas, se lembra de algo. Caminha para o seu quarto, vai abrir duas portas do velho e resistente guarda-roupa que atravessou gerações, trabalho do Nestor, qualidade da A Caprichosa, que ficou na história da cidade.

     Portas abertas do guarda-roupa. Surge uma coleção de vestidos. Ela tira do cabideiro um azul turquesa, de mangas longas, que usou no dia do seu aniversário: 14 de julho de 1996. “Disseram para eu não usar este porque é muito quente. Aí uma amiga me disse que na minha idade eu tenho o direito de usar o que quiser e além do mais o aniversário era meu. Usei o azul e pronto.”  Azul do céu turquesa da Maringá de Dalva.

Dalva faleceu no dia 13 de abril de 2021.

(Crônica de Antonio Roberto de Paula originariamente publicada no livro “Maringá 70 anos – a cidade contada pelos que viveram sua história”, editado pela Unicesumar, tendo como autores Antonio Roberto de Paula, Dirceu Herrero Gomes, Miguel Fernando Perez Silva e Rogério Recco, 2017, 2018) 

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