Últimas Publicações / Descanse em paz, Oliveirão, nome histórico do Grêmio Esportivo Maringá

José Oliveira Dias, o Oliveirão, agora é só saudades. Ele nos deixou no dia 15 de dezembro de 2020, vítima de AVC. Antes havia sofrido outros dois. O “Pneu”, apelido que ele aceitava numa boa, escreveu uma bela história no futebol profissional de Maringá, mais importante ainda foi marcar seu nome na vida dos que o conheceram. Figura cativante era o Oliveira, sorriso fácil, jeito simples sem ser simplório, humilde, mas um tremendo gozador.

Nascido no Rio de Janeiro em 9 de março de 1937, ele chegou em Maringá em 1961, ano da fundação do Grêmio Esportivo Maringá. Em 1962, o aguerrido lateral direito estreou no Galo do Norte e nos dois anos seguintes colocou no peito a faixa de bicampeão paranaense. Aliás, a faixa de bicampeão foi doada ao Museu Esportivo de Maringá pelo Rafael, filho único dele, que no seu pranto incontido pela perda do querido pai, me entregou a relíquia tão logo o caixão foi fechado. Rafael, te prometo que vamos continuar contando a história do Oliveirão. Ele partiu, mas muito mais gente vai saber quem foi o seu pai.

Na época de ouro do futebol profissional de Maringá, Oliveirão (para diferenciar do Oliveirinha, que fazia parte do elenco do Grêmio), esteve presente. Nos títulos, nos grandes jogos, nos amistosos, inclusive na espetacular vitória contra a União Soviética por 3 a 2, em 1966, lá estava o Oliveirão. Nquele inesquecível 11 a 1 aplicado pelo Santos de Pelé e cia, em 1965, lá estava o Oliveirão. E ele tinha orgulho de dizer: “Eu estava nos 11 a 1”. E a gente perguntava: “Oliveira, como era jogar contra aquele time do Santos?” Ele fazia um sinal negativo com a cabeça, dava uma risadinha e dizia que jogar contra a equipe da Vila Belmiro naquela época era entrar no gramado e torcer para perder de pouco.

Oliveira esteve na Casa de Bamba, em 2016, quando lançamos a Exposição Maringá Futebol Memória. Eu me recordo bem que pedi ao amigo Dionísio Rodrigues Martins que passasse na casa do Oliveira pra lhe dar uma carona. E assim foi feito. Aquele foi o evento em que o Museu Esportivo de Maringá saiu das redes sociais e entrou no mundo real. Conseguimos reunir mais de 350 pessoas na famosa casa dirigida pelo grande parceiro Helington Lopes. Muitos amigos: ex-jogadores profissionais e amadores de diferentes modalidades, dirigentes, jornalistas, esportistas em geral, familiares. Temos muitas imagens daquela noite, dia 22 de novembro. Revendo as fotos, a alegria predominante, amigos se reencontrando, vem a emoção de saber que conseguimos realizar uma grande festa do esporte. Alguns daqueles amigos já não estão entre nós. E agora o Oliveirão também se despede.

No dia 30 de outubro de 2017, quando o Museu Esportivo inaugurou o seu espaço fixo, Oliveira também prestigiou. Uma tarde festiva. Oliveira foi fotografado, deu entrevistas. Roderley, grande parceiro do MEM, grande amigo dele, companheiros campeões no Galo do Norte, também esteve na inauguração. Muitas brincadeiras, muitas risadas. “O atacante vinha com a bola e o Roderley gritava: ‘Pega, pega’. A gente ia, dividia, tomava a bola e ele gritava: ‘Dá, dá’. Só queria bola no pé.”  E Roderley confirmava: “Lógico, vocês são bons pra rachar, mas quem conhece de bola sou eu.” E mais risadas, para o deleite das pessoas em torno da dupla. Amigos e fãs.

Estive na casa do Oliveira duas vezes, fiz entrevistas com ele, fotos. Casa própria no Jardim Alvorada, morador há 50 anos no maior bairro de Maringá. Seu mundo era restrito às cercanias da praça Farroupilha. Não bebia nem fumava, mas adorava jogar conversa fora nos bares. No domingo, dia 12 de dezembro, já bem debilitado, seus familiares contam que ele não perdeu o humor. “O senhor gostaria que a gente fizesse uma oração?” “Olha, eu queria jantar.” Caíram na risada. “O senhor queria era estar com os amigos no boteco, né?” Ele abriu um sorriso e fez um sinal de positivo.

Devido à pandemia, pouca gente no velório e no sepultamento realizados à tarde. Amigos de décadas, pessoas humildes, choravam em frente ao caixão e abraçavam Rafael, que deve ter derramado todas as lágrimas do mundo desde da hora em que ficou sabendo da morte do pai até o enterro. E, certamente, muitas lágrimas derramará. Rafael levou quadros de fotos de Oliveira no time do Grêmio Esportivo Maringá. Ele me pediu e eu levei uma camisa antiga do Galo, que ficou ao lado do caixão.

A última homenagem foi com o violonista Elizier, que tocou “Maringá”, a obra prima de Joubert de Carvalho. As minhas lágrimas chegaram num misto de tristeza pela morte do Oliveira e ao ver o choro dos familiares e pela saudade do meu pai Alcebíades, falecido em 2006, que também foi velado ali e, na ocasião, Elizier também tocou “Foi uma leva que a cabocla Maringá ficou sendo a retirante que mais dava o que falá...” Já na sepultura, perguntaram se alguém queria dizer algumas palavras. Eu tinha, tinha muitas palavras, mas tentei resumir. Disse que Oliveira foi um campeão no futebol, mas muito mais do que qualquer conquista nos gramados, teve a glória de se cercar de muitos amigos. Também disse que estava ali representando centenas de amigos do Museu Esportivo e, em especial, Roderley, que não pôde comparecer porque estava se recuperando do Coronavirus. Por fim, jogamos pétalas de rosas no caixão e nos despedimos do Oliveira, sepultado no jazigo da família onde está a companheira Maria José.

Eu me lembro que na manhã daquele dia, antes de ir ao velório, liguei para o Roderley, que chorava muito com a perda do amigo, amizade de quase sessenta anos. Entre lágrimas, Roderley me disse:“Não sabia que gostava tanto do Oliveira. Perdi um irmão. Pela pessoa verdadeira e querida que ele foi, tenho a certeza que Deus reservou um bom lugar para ele no céu.” Quem conheceu o Oliveira também tem essa certeza.

(Antonio Roberto de Paula, diretor do Museu Esportivo de Maringá)

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