Últimas Publicações / A história da Folha do Norte do Paraná - autor: Antonio Roberto de Paula

O primeiro livro online de Maringá - escrito em 2001 e atualizado em 2009 - Antonio Roberto de Paula 

As fotos estão depois do final do texto. 

O JORNAL DO BISPO – A HISTÓRIA DA FOLHA DO NORTE DO PARANÁ, um importante fragmento da vida de Maringá contado por gente que escreveu a História nas páginas da Folha do Norte do Paraná. Capítulo a capítulo. Textos e imagens impregnados de história. O primeiro livro online de Maringá-PR. Saiba ou relembre os fatos marcantes narrados por gente que teve estreita relação com a Folha do Norte, a trajetória do jornal, fundado em 1962 pelo arcebispo de Maringá, dom Jaime Luiz Coelho, e que encerrou as atividades em 1979, e viaje pelas ruas e pelos fatos de uma cidade em construção. Conheça o espírito de Maringá e sua gente, dos profissionais da imprensa e das lideranças políticas da cidade nas décadas de 1960 e 1970.

 

Autor: Antonio Roberto de Paula

Todos os direitos desta publicação são reservados a Antonio Roberto de Paula. É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste livro desde que citado o nome do autor. A utilização das fotos está permitida somente sem fins lucrativos e com a devida citação do autor ou autores e do blog jornaldobispo.blogspot.com.

 

Fachada da Folha do Norte do Paraná, em 1962

 

 

APRESENTAÇÃO

O Jornal do Bispo – A história da Folha do Norte do Paraná foi o tema da minha monografia de conclusão do curso de Comunicação Social no Cesumar (Centro Universitário de Maringá), em 2001. O título do trabalho foi Os homens da Folha do Norte do Paraná. Passados oito anos, houve a necessidade de realizar muitas atualizações para a publicação. Decidi também alterar o título.

A Folha do Norte do Paraná ficou conhecida, com toda a razão, como o jornal do bispo. Quem viveu em Maringá e na região nos anos em que o jornal circulou sabe os motivos do cognome. Se você não viveu aquela época, vai saber depois de ler este livro.

Vários foram os motivos que me levaram a escrever sobre a Folha. Ela ficou marcada na história de Maringá, pois representa a passagem do jornalismo artesanal e romântico para o profissional e quase impessoal. A Folha cresceu com a cidade, mas sucumbiu diante da modernidade.

Analiso ser importante resgatar a história da Folha porque não existe nenhuma publicação a respeito. No Museu Diocesano, localizado no quarto piso da Catedral Nossa Senhora da Glória, e no Museu da Universidade Estadual de Maringá, é possível conhecer parte da história, através dos exemplares catalogados.

No entanto, não há registro de depoimentos específicos de diretores e jornalistas que pertenceram ao jornal. A história da Folha estava, até então, materializada nas publicações. O relato dos personagens deu alma à frieza das páginas amarelas guardadas nos museus.

Este trabalho tem a pretensão de mostrar aos que querem enveredar pelo tortuoso e gratificante caminho do jornalismo a motivação daqueles profissionais, o trabalho num jornal em que a Igreja Católica era a patroa e o relacionamento com os poderes constituídos.

Tenho esta pretensão, mas mesmo que não a atinja já estarei colaborando para contar, sob o meu ponto de vista, construído através dos relatos ouvidos de profissionais que atuaram no jornal, este período do jornalismo maringaense, que teve início em 1962 e terminou em 1979.

Sinto-me gratificado em saber que a monografia sobre a Folha, tem sido fonte de consulta de estudantes do curso de Comunicação Social. Mas, entendo que é necessário que mais pessoas, das mais diferentes áreas de atuação tenham acesso a um importante capítulo da história de Maringá.

Ressalto que O Jornal do Bispo é um levantamento jornalístico e não um trabalho histórico. Esclareço que não tenho sequer noções de metodologia para desenvolver um amplo trabalho de pesquisa histórica. Quis, contudo, que houvesse um respaldo histórico. Prevalece o meu conceito sobre a Folha, mas tudo dentro da fidelidade que me foi passada pelas entrevistas e documentos.

Para a composição deste trabalho, tive que realizar pesquisas na Arquidiocese de Maringá, Museu Diocesano, 2º Cartório de Registro de Imóveis, Títulos e Documentos, Junta Comercial do Paraná, Prefeitura do Município de Maringá, Câmara do Município de Maringá e arquivos pessoais. Em 2001, protocolei ma Prefeitura de Maringá requerimento solicitando uma certidão de atividades da empresa Folha do Norte do Paraná S/A, mas a Secretaria de Fazenda informou que não havia nenhum documento a respeito.

Ao longo dos meses, conversei com muitas pessoas, entrevistei dezenas. Antes de iniciar o trabalho, já esperava as dificuldades. Tracei um rumo, que alterei logo na primeira entrevista. A cada contato com um entrevistado aumentava a aflição. A insegurança só veio a diminuir à medida que os fatos foram sendo delineados e as checagens feitas através dos depoimentos.

Alguns entrevistados tiveram que ser estimulados vendo as publicações da Folha para lembrarem do trabalho que lá realizaram. Moracy Jacques, o fotógrafo que mais tempo trabalhou no jornal, não pôde colaborar com nenhuma fotografia para a realização deste trabalho.

Em que pese o seu esforço e da sua família na procura, nenhum material foi encontrado em sua residência e na sua produtora de vídeo. Não existe um arquivo de fotos da Folha. As que obtive foram de ex-funcionários.

Idealizei esta obra partindo do pressuposto de que a história teria que ser contada, evidentemente, pelos personagens que a viveram, tendo, porém a liberdade de fazer minhas considerações quando as julgasse necessárias. As minhas impressões estão respaldadas nas informações que me foram prestadas pelas pessoas citadas nos capítulos, pelos sentimentos que captei e emoções que senti.

É por isso que tomo a liberdade de escrever esta apresentação em primeira pessoa, já que este é um trabalho que considero minha realização pessoal, uma idéia que há muito estava na minha cabeça e que hoje coloco à disposição das pessoas para contribuir com o resgate de parte da história da imprensa de Maringá.

Felizmente, pude entrevistar as pessoas que exerceram papel fundamental na história da Folha do Norte do Paraná, como o 1º arcebispo de Maringá, dom Jaime Luiz Coelho, os arrendatários Joaquim Dutra e Jorge Fregadolli, e o jornalista Antonio Augusto de Assis, que permaneceu durante 12 anos como diretor de redação.

Felizmente também consegui tomar depoimentos de outros profissionais que, se não tinham posição de grande destaque, contribuíram sobremaneira para a execução desta tarefa com valiosas informações técnicas e pessoais. As referências às citações do entrevistado estarão no corpo do texto e não em anexo para facilitar a leitura e impor mais força aos capítulos.

Quase todo entrevistado, quando remetido para algum lugar do passado, faz aflorar situações que julga devidamente sepultadas. É criada, então uma empatia. O entrevistador não fica imune e procura se posicionar neste lugar do passado. Para mim não foi difícil porque cheguei em Maringá em 1959 e algumas lembranças da década de 1960 e muitas da década de 1970 carrego comigo.

Algumas figuras de proa da Folha já não estão entre nós, como Antonio Messias Pimenta e Waldir Pinheiro. Assim como o colunista Osvaldo Lima, que foi entrevistado para este trabalho. José Torres, o Padre André, há muitos anos saiu de Maringá sem deixar endereço. Não consegui contato com os jornalistas Antonio Calegari, Francisco de Oliveira, o Mini-Chico, entre outros. Apesar destes hiatos, pretensiosamente afirmo que os objetivos foram alcançados.

Asseguro que não foi tão difícil fazer com que os entrevistados “soltassem a língua” em questões tidas como polêmicas, como a venda das ações para a instalação da Folha e os embates entre dom Jaime e os arrendatários. Avalio que o fato da Folha ter fechado suas portas há décadas, os espíritos estejam desarmados hoje.

Dom Jaime Luiz Coelho, que havia me concedido entrevistas em outras oportunidades, se mostrou receptivo. Ao contrário das outras vezes, em que queria informações sobre o que seria divulgado, nesta isto não aconteceu. Acrescento que o arcebispo não leu nenhum capítulo deste trabalho.

Das 21 entrevistas, 19 foram gravadas em fitas K-7. O material está arquivado com as degravações correspondentes. Wilson Serra e Joel Cardoso responderam as perguntas via e-mail. É importante frisar que dezenas de pessoas colaboraram para a pesquisa sem que tenham sido oficialmente entrevistadas, como Hélio Baiardi Oliveira, João Amaro Faria, Ercílio Santinoni, entre outros que, com suas informações e sugestões, colaboraram sobremaneira para a execução desta obra. Ao longo deste trabalho, sempre que solicitados para dirimir dúvidas, esclarecer pontos ou acrescentar informações, os 21 entrevistados, em sua maioria, mostraram grande boa vontade.

O Jornal do Bispo é, em linhas gerais, uma homenagem a dezenas de profissionais, alguns dos quais tive o prazer de trabalhar e desfrutar de sua amizade, que ajudaram a construir Maringá fazendo um jornalismo com amor e determinação.

 

Capítulo 1 - A PERSONALIDADE

Dom Jaime Luiz Coelho é uma das personalidades mais marcantes e longevas da história de Maringá, tendo chegado a cidade em 1957. Nascido em Franca-SP, no dia 26 de julho de 1916, foi o primeiro bispo diocesano e o primeiro arcebispo, sendo substituído por dom Murilo Krieger em 1997.

O principal marco de dom Jaime na cidade é a Catedral Nossa Senhora da Glória, o imponente monumento de 124 metros de altura, inspirado antagonicamente no foguete russo Sputinik, que começou a ser erigido no início dos anos de 1960 para ser finalmente inaugurado em 1972. Dom Jaime foi o inspirador da obra, enfrentou resistências, buscou recursos junto ao poder público e aos fiéis de todas as classes sociais e concretizou o sonho de ver a Igreja Católica ostentar em Maringá o maior e mais alto templo religioso. É o décimo mais alto monumento do mundo e o segundo da América do Sul.

Foi também o fundador da Folha do Norte do Paraná. Dom Jaime pensava longe. Queria fazer da Folha o maior jornal do interior do Brasil para combater o esquerdista (como era chamado pelos militares e pela Igreja, e não sem razão) Última Hora, de Samuel Wainer. Se não chegou a tanto, o jornal do bispo pelo menos passou a ser uma referência no Estado para os leitores de mais de cem cidades e até onde alcançava seu poder junto às dioceses.

A sua ojeriza ao comunismo fez com que criasse a FAP (Frente Agrícola Paranaense) para se tornar uma barreira contra os vermelhos. Apoiou entusiasticamente a Revolução (termo utilizado pela ditadura militar) de 31 de março de 1964. A Folha, desde o primeiro exemplar, serviu aos interesses dos militares.

Ela propagandeou o capitalismo americano e execrou os marxistas. Sem partido, dom Jaime conclamava os católicos a perseverarem na fé cristã para resistir aos assédios dos que incentivavam uma mudança sem os dogmas da Igreja.

Com os militares no poder, o bispo colocou um freio no veículo de propaganda ambulante que a Folha se tornara antes de 31 de março. Passou para os questionamentos. A guerra declarada contra o comunismo já não era a sua principal bandeira de luta. Dirigiu suas baterias contra Moysés Lupion, o governador que virara as costas para Maringá.

Coerente na escrita, onde exercitava sua lavra todos os domingos na Folha ou quando havia uma ocasião especial, tornava-se eloqüente e temerário no púlpito, destilando toda a sua revolta e decepção.

Teve participação ativa na criação da Faculdade de Ciências Econômicas, o embrião da Universidade Estadual de Maringá, liderou um sem número de grupos de apoio às entidades assistenciais e foi um dos fundadores da TV Cultura, afiliada da Rede Globo na cidade.

Era amigo pessoal de Ney Braga. O governador o chamava carinhosamente de “meu padrinho”. Desde que chegou em Maringá, no dia 24 de março de 1957, vindo de Ribeirão Preto (SP), não se manteve distante da política partidária.

Enquanto combatia Lupion, quando chegou a encetar um movimento com outros bispos, tendo como objetivo a criação do Estado do Paranapanema, e enquanto defendia Ney Braga, se tornando o seu cabo eleitoral número um no norte do Paraná, não se descuidava da política doméstica.

Era um dos maiores líderes numa cidade que contava com cerca de 100 mil habitantes no final da década de 1950 e início da década de 1960. Uma liderança que unia a religião à política. Obter seu apoio era mais que meio caminho andado para a vitória. João Paulino, amigo de Lupion e prefeito em duas oportunidades, nunca fez parte do círculo de amigos de dom Jaime. O reflexo e a comprovação disso estavam nas páginas da Folha. Com espaço similar, ficou registrada no jornal do bispo a estima por outros dois prefeitos: Luiz de Carvalho e Adriano Valente.

Claro e definido, ele angariou admiradores e adversários ao longo das décadas. As maiores críticas dizem respeito ao provincianismo com que Maringá se manteve durante seu bispado e arcebispado e o fato de se aproveitar da sua liderança para interferir na política local.
Os elogios decorrem do seu espírito empreendedor, que extrapolou suas funções de religioso, e a defesa intransigente de Maringá, se tornando uma pedra no sapato dos governos Estadual e Federal.

Na década de 1970, tornou-se mais comedido e menos expansivo nos apoios, mas é notório que os principais candidatos iam à Catedral pedir sua bênção. Em 1979, brigou na Justiça para ter a Folha do Norte de volta. Vitorioso, fechou as portas do jornal para nunca mais abri-las. Hoje, aos 93 anos, não totalmente livre de suas obrigações sacerdotais, dom Jaime tem consciência do seu papel na história da cidade, porém, evita polêmicas, normalmente rejeita renovar discussões quando o assunto diz respeito a Maringá e seus políticos.

Em períodos eleitorais, contudo, seu espírito político aflora e retoma a antiga contundência, como se constata até hoje em seus artigos publicados na página 2 do O Diário do Norte do Paraná, desde que o jornal foi fundado em 1974.

O primeiro arcebispo de Maringá faz desse espaço dominical um de seus últimos redutos para fazer valer sua opinião sobre temas que envolvem principalmente política e religião. O púlpito continua a ser outro meio utilizado.

A Folha foi o paladino da moral e dos bons costumes. Se a moral e os bons costumes são termos subjetivos, que variam de lugar e de época, dom Jaime foi, em Maringá, a objetividade para definir estes conceitos. A história de dom Jaime é grande parte da história da cidade.
 

Dom Jaime, o fundador da Folha do Norte do Paraná
(Foto: Henri Júnior)

 

Ney Braga, em 1963, em Maringá, com dom Jaime. O governador chamava o bispo de “meu padrinho”
(Foto: arquivo pessoal de José Aparecido Borges)

 

Dom Jaime é entrevistado por Lindolfo Luiz; prefeito de Maringá, Américo Dias Ferraz à sua esquerda, em 1957
(Reprodução - Foto: Arquivo Museu Diocesano de Maringá

 

 

Capítulo 2 - OS PIONEIROS DA IMPRENSA MARINGAENSE

O lançamento da Folha do Norte ocorreu em 1962. Um outro jornal surgiu na cidade doze anos antes. Foi O Jornal de Maringá, em 18 de junho de 1950. Quando se fala em pioneirismo na imprensa de Maringá aparecem os nomes de Ivens Lagoano Pacheco e Samuel Silveira e não sem razão. Foram eles que deram uma linha realmente profissional ao matutino O Jornal de Maringá. Antes, porém, um jovem casal deu início a um trabalho com pouca estrutura e muito idealismo.

O escritor Arthur Andrade sustenta em seu livro Maringá - ontem, hoje e amanhã, lançado em 1979, que coube a Avelino Ferreira, falecido em 22 de julho de 2004, com 80 anos, que chegou em 1948, a iniciativa pioneira de fundar um jornal em Maringá. Nas pesquisas que fez, Andrade obteve os depoimentos de Ferreira e sua esposa Leonor do Lago Ferreira, publicando-os nas páginas 128, 129 e 130 do seu livro. A seguir, os depoimentos na íntegra, transcritos do livro Maringá - ontem, hoje e amanhã:

“Avelino Ferreira, e eu, Leonor do Lago Ferreira, chegamos em Maringá em 19 de março de 1948, recém-casados, naquela crua, mas linda cidade. Efetivamente estávamos acostumados com a cidade grande e naturalmente foi um impacto ao defrontarmos com uma cidadezinha começando a se formar, aquele barro, aquela poeira, mas apesar disso, tínhamos dentro de nós muita vontade de lutar, de fazer nossa vida. Avelino veio para trabalhar com seu cunhado Francisco Luca, em uma alfaiataria localizada na rua Santos Dumont, em frente onde se situa hoje o Bar e Sorveteria Oriental. Em Marília, de onde procedíamos, ele trabalhava com tipografia e nesse ramo de atividade muitas vezes chegou a observar e participar da impressão de jornais. Daí o gosto pelo aspecto jornalístico e como sempre sonhou em ter um jornal, teve a idéia de montar um. Porém, não tínhamos recursos para isso. Mas nossa idéia encontrou guarida na pessoa do Sr. João de Oliveira, ex-proprietário da tipografia e livraria Maringá de quem Avelino alugou as máquinas e fundou seu jornal. Foi uma luta dramática, pois ele mesmo montava os tipos, sem o auxílio de energia elétrica que naquela época não havia chegado em Maringá. Trabalhava com uma máquina impressora à base de um motor à gasolina e à luz de um lampião. No início ele não tinha nenhum redator e era eu quem corrigia os erros de português e o auxiliava em tudo o que fosse possível para que sua idéia tivesse ressonância entre os maringaenses. Em nossa casa nós costumávamos ouvir um noticiário que levava o nome de O Jornal, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, num pequeno rádio à bateria que trouxéramos conosco. O nosso jornal precisava de um nome, daí, por minha sugestão, surgiu a idéia de denominá-lo O Jornal de Maringá. É com grande alegria e porque não dizer com um sonho concretizado, a 18 de junho de 1950, circulava na cidade o primeiro número de O Jornal de Maringá. Nessa primeira histórica edição, se não me falha a memória, foram confeccionados cerca de trinta exemplares.”
E prossegue o Sr. Avelino: “Dentre as primeiras pessoas a receberem, lembro-me de alguns, pois todos, seria impossível já que faz tantos anos. Mas mesmo assim, recordo-me de Odwaldo Bueno Neto, Arlindo Marquesini, Angelo Planas, Napoleão Moreira da Silva, Alfredo Nyffeler, Alberto Ribeiro de Andrade, João de Oliveira, Tirso Rodrigues Alves, Dr. Jorge Ferreira Duque Estrada, Esmeraldo Leandro, Dr. Gerardo Braga, a família Peralta, e quero aproveitar para realçar o grande incentivo, o grande impulso moral que recebi de David Rabelo e da família Aliberti, sem dúvida alguma eles acreditavam no meu empreendimento. Confesso-lhe que foi uma jornada da minha vida das mais árduas, pois veja você que o jornal era composto a mão, tipo por tipo, cada letra é um tipo, e nós tínhamos de compor um dispositivo chamado componedor; depois formavam-se as colunas, fazia-se a paginação, tiravam-se provas, corrigiam-se os erros e depois disso tudo levava-se à impressora. Tudo era feito à noite onde eu trabalhava até por volta de duas ou três da madrugada e no dia seguinte, bem cedo, eu mesmo saía bem cedo para entregar o jornal e trabalhar em outra atividade profissional para sustentar minha família. Não resta dúvida que o trabalho executado era uma verdadeira obra artesanal. Devo dizer também que grande parte da população de Maringá não tinha muito interesse em que a cidade tivesse um jornal, pois algumas pessoas alegavam que era muito melhor comprar ou assinar o jornal “O Estado de São Paulo”, pois assim ficariam sabendo das notícias que se passavam no mundo e não em Maringá onde nada acontecia ou trazia ao interesse dos leitores. Talvez também por eu ter apenas vinte e dois anos, com uma idéia muito avançada para a época. Tudo é possível. Mas como você sabe, idealismo sem recurso financeiro não funciona. Daí fiquei com a responsabilidade do O Jornal durante seis meses, passando logo após o encargo a meu irmão Caetano Ferreira que, no entanto, ficou com tal incumbência durante pouco tempo. A seguir, José Saldanha, que era tipógrafo, deu continuidade ao nosso trabalho, porém, não mais como O Jornal e sim como Maringá Jornal. Aproximadamente durante um ano, Saldanha continuou a imprimir aquele matutino, pois a partir de 1951 ou 1952 surgiu então a figura de Olmiro Prompt que passou a gerir os destinos do Maringá Jornal como órgão dos Jornais Associados Paranaenses. Sua participação foi efêmera, chegando inclusive a ocorrer a paralisação da impressão do jornal durante alguns meses.”


Depois dos depoimentos, Arthur Andrade dá seqüência à história: “Somente com a chegada de Ivens Lagoano Pacheco e com a participação efetiva de Samuel Silveira, é que pudemos ver novamente nas bancas de nossa cidade, circulando no dia 5 de abril de 1953, O Jornal de Maringá, com seu título original e sob nova direção, dando prosseguimento a uma luta iniciada por Avelino Ferreira, o iniciador da verdadeira história do O Jornal de Maringá.”
Avelino Ferreira também informou a Andrade que durante os anos de 1954 e 1955 surgiu um outro jornal em Maringá: A Hora, dirigido pelos irmãos Zimmermann.
Contudo, é importante registrar que um ano antes do lançamento do O Jornal de Maringá, circulou na cidade o semanário Voz do Norte. A edição número 1 é de julho de 1949. O diretor era Orlando Simões de Almeida, o gerente José Silveira e o secretário Vitor Costa. Em 1974, o Diário do Norte do Paraná fez uma reportagem de página inteira do Voz do Norte, inserindo inclusive uma reprodução da capa da primeira edição.
 

 

A edição número 2, de 1950, do O Jornal de Maringá: reprodução do livro Maringá, ontem, hoje e amanhã, de Arthur Andrade

 

Reprodução da edição número 5 do O Jornal, em 17 de maio de 1953; Ivens Lagoano Pacheco é o diretor responsável, diretor comercial Ignácio Nassif e os redatores Helenton Borba Cortes, Mario Clapier Urbinati e João Alfredo Menezes

 

Repdução da edição número 74 do O Jornal, em 7 de abril de 1954; Ivens Lagoano Pacheco continua como diretor responsável.

 

Capítulo 3 - O FATOR DETERMINANTE

Maringá viu muita gente naquele domingo. O cálculo é que mais de 10 mil pessoas assistiram a missa campal na praça da Igreja Matriz Nossa Senhora da Glória, onde hoje está a Catedral.

Naquele dia, 13 de agosto de 1961, os bispos de Maringá, dom Jaime Luiz Coelho, e de Londrina, dom Geraldo Fernandes, lançavam oficialmente a FAP (Frente Agrária Paranaense). Eles conseguiram reunir em Maringá, com o apoio das dioceses de Campo Mourão e Jacarezinho, católicos de cerca de cem cidades paranaenses.

O encontro não ficou restrito à missa. Um grande churrasco foi preparado e um desfile de carros alegóricos pela avenida Brasil foi realizado. Maringá foi tomada por colheitadeiras, tratores e carros de boi, e por homens e mulheres com enxadas, machados e foices.

Os discursos acalorados e incisivos dos bispos tinham como inspiração a encíclica Mater et Magistra, publicada pelo papa João XXIII naquele ano. O papa pregava a organização dos trabalhadores rurais em sindicato. Dom Jaime discursou conclamando os trabalhadores a se organizarem, mas era necessário seguir “o justo caminho”.

A FAP tinha como metas a formação de líderes sindicais, a criação de sindicatos de orientação cristã, a criação de cooperativas para os pequenos produtores rurais, assistência educacional, religiosa e moral, e a assistência médico-hospitalar ao trabalhador rural.

O lançamento da FAP naquele domingo não aconteceu por acaso. Nos dias 12, 13, 14 e 15 de agosto daquele ano estava sendo realizado em Maringá o 2º Congresso de Lavradores e Trabalhadores Rurais do Paraná. O evento também era de grande magnitude e até mais representativo. O presidente da República, Jânio Quadros, foi representado pelo deputado Nestor Duarte, líder do governo na Câmara Federal.

Outros deputados federais e estaduais haviam comparecido. Autoridades locais, inclusive o prefeito João Paulino, e representantes de cidades da região também prestigiaram o congresso, além de líderes sindicais de vários pontos do País. Das fazendas paranaenses vieram cerca de 2 mil delegados.

E a maior estrela não poderia faltar: Francisco Julião, o presidente das Ligas Camponesas de Pernambuco, o homem que personificava o medo dos católicos com o avanço comunista. Dom Jaime e dom Geraldo tudo fizeram para que o congresso não fosse realizado. Foi pedida, inclusive, a intercessão do Vaticano.

Ofícios foram enviados aos poderes constituídos, inclusive à polícia. Em vão. Nos dias que antecederam aos eventos, apesar do clima tenso, não se imaginava que poderia haver confronto entre aqueles que eram ligados à Frente e os congressistas.

No dia 14, na avenida Brasil, cerca de 5 mil pessoas desfilaram em protesto contra o Congresso e pararam em frente ao prédio onde se realizava o encontro. A maior parte da passeata era formada por estudantes das escolas católicas de Maringá, Londrina e Apucarana. Portando cartazes contra o comunismo, contra Julião e as Ligas Camponesas, os estudantes, a maioria do Colégio Marista, gritavam palavras de ordem.

Não fosse a providencial chegada da polícia, o dia ficaria marcado com sangue na história. No inevitável choque, houve alguns feridos, embora sem gravidade, em confrontos isolados entre estudantes e alguns padres com os congressistas.

Não foi por acaso que em setembro daquele ano dom Jaime tivesse decidido levar adiante seu projeto de fundar a Folha do Norte do Paraná. O episódio havia dado ao bispo a exata dimensão da força da Igreja Católica no interior do Estado e ao mesmo tempo carregava de tintas a iminência do perigo comunista.

Como congregar as centenas de células católicas espalhadas em mais de cem cidades paranaenses abrigadas nas dioceses de Maringá, Londrina, Jacarezinho e Campo Mourão? Só à Diocese de Maringá pertenciam 20 cidades com uma população estimada em 1 milhão de habitantes.

Como municiar diariamente o rebanho com informações cristãs e anticomunistas? Como conter o avanço marxista levando-se em conta que o Governo Federal era condescendente com os sindicatos, principalmente com as ligas camponesas, que pregavam esta doutrina?

A decisão de montar um jornal diário, moderno e de grande abrangência surgiu depois destas elucubrações de dom Jaime, ainda em 1960, quando os recursos começaram a ser obtidos. Com a efervescência política em 1961, o bispo não queria protelar a implantação.
Igreja Matriz Nossa Senhora da Glória, no início da década de 1960
(Foto: arquivo pessoal de José Aparecido Borges)

Multidão de fiéis na praça onde foi construída a Catedral, no início da década de 60

(Reprodução foto Museu Diocesano)

13 de agosto de 1961: lançamento da FAP (Frente Agrária Paranaense) em Maringá reuniu 5 mil pessoas.
(Reprodução foto - site: www.maringa.com)

 

Capítulo 4 - EFERVESCÊNCIA

O professor e historiador Reginaldo Benedito Dias, que já escreveu vários livros e artigos sobre a história político-administrativa de Maringá, confirma, embasado nas pesquisas que realizou, a similaridade da cidade com os demais municípios do país em relação à influência comunista nos movimentos sindicais.

¨Em Maringá, a força comunista estava concentrada nas lideranças dos sindicatos rurais, destacando a figura de José Rodrigues dos Santos, que participou da formação de sindicatos rurais e urbanos, sendo o primeiro presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais do Paraná e fundador da confederação da categoria.Dias cita ainda o sindicalista José Lopes dos Santos e o vereador comunista Bonifácio Martins, que era filiado ao PR (Partido Republicano) na legislatura 1956-60 e ao PST (Partido Social Trabalhista) na legislatura 60-64. Essas escolhas partidárias eram necessárias porque o PCB (Partido Comunista do Brasil) estava na ilegalidade. Reginaldo fala da importância de Bonifácio Martins:“Ele teve um papel destacado na luta por moradia. Era um grande orador e ficou perpetuado na memória do maringaense não apenas como um vereador comunista, mas também como um grande vereador. Um vereador que até hoje se inclui entre os melhores porque só visava ao papel do parlamentar, no sentido de propor projetos, de fiscalizar o Executivo, de fazer o grande debate e de ter essa face característica de mobilizar a população.'


A afirmação de que a Folha do Norte foi criada com o claro objetivo de fazer frente à influência do marxismo é referendada por Dias:

Aquela conjuntura histórica era marcada por acentuada polarização ideológica. Era os tempos da “guerra fria”, a polarização ideológica liderada pelos EUA e pela URSS. Para proteger o seu rebanho da influência da esquerda marxista, dom Jaime e os bispos paranaenses propuseram formas de organização próprias aos católicos. Os trabalhadores do campo, vistos como mais suscetíveis, foram privilegiados por meio da Frente Agrária Paranaense. A criação da Folha do Norte faz parte desse embate ideológico. A Igreja era ciosa da importância dos grandes meios de comunicação para a evangelização. Dom Jaime tivera intimidade com a mídia radiofônica e viria a participar da fundação da Televisão Cultura em Maringá.

O professor e historiador Dias explica o posicionamento de dom Jaime e da Igreja Católica antes de 1964:

'O movimento de 31 de março de 1964, que depôs o presidente João Goulart, foi o desenlace da disputa ideológica daquele período. O bispo e o prefeito, acompanhados pelas principais autoridades do município, apoiaram o movimento. Na verdade, a cúpula da Igreja Católica brasileira apoiou a ruptura institucional de 31 de março, chamada por seus autores de “Revolução” e pela historiografia de “Golpe de Estado”. A Igreja Católica julgava a intervenção temporária e necessária para espantar o fantasma do comunismo.'

E depois de 1964:

'Entretanto, no final da década, uma vez consolidada a ditadura, a Igreja mudaria seu posicionamento, cerrando fileiras com a oposição. Postou-se ao lado das vítimas da repressão. Na década de 1970, viria a exercer notável e decisivo papel na articulação do povo para as lutas da redemocratização. Dom Jaime, em outras ocasiões, externou solidariedade a movimentos sindicais, como em 1968, quando intermediou o fim da greve da Cia. Norpa Industrial, fato que analiso em minha pesquisa de mestrado.'

Dias comenta sobre Bonifácio Martins, José Rodrigues dos Santos e José Lopes dos Santos após 31 de março:

'De qualquer forma, em 1964, naquele clima instaurado, as principais lideranças de esquerda foram alvejadas pelos tentáculos do aparato repressivo do regime instaurado. Bonifácio Martins não foi cassado pela Câmara Municipal, mas, por razões de segurança, evadiu-se de Maringá. José Rodrigues dos Santos e José Lopes dos Santos, que estavam desempenhando funções sindicais no Rio de Janeiro e em Curitiba, tornaram-se clandestinos. Os três foram processados pelo regime. José Rodrigues dos Santos viria a ser preso na década de 1970, por meio da Operação Marumbi. Só voltaria a morar em Maringá na década de 1990.'

Reginaldo Benedito Dias, que foi chefe de gabinete da administração petista em Maringá, na gestão 2001-2004, era criança quando estes fatos aconteciam, mas hoje, sendo professor e historiador e, mais ainda, pelo fato de ter nascido em Marialva e chegado ainda pequeno a Maringá, ele tem a noção, ainda que parcial, do que a Folha do Norte representou e da influência de dom Jaime:


“Quando conheci a Folha do Norte era um jornal que atuava num circuito mais ou menos normal porque a FAP foi se desarticulando depois do golpe militar. O bispo tinha lá a sua coluna, era um jornal que tinha uma linha bem definida. Agora, não dá para subestimar a influência do bispo na década de 60. Hoje, muita gente não tem idéia de qual era a influência do bispo na cidade, naquele momento.”

Sobre a dimensão da liderança do bispo, explica:

'Quando dom Jaime chegou a Maringá para a implantação da Diocese, a cidade não havia consolidado grandes líderes políticos. Os dois primeiros prefeitos não tiveram sucesso na construção dessa liderança. Foi então que chegou dom Jaime, com vocação e talento para a liderança, e preencheu esse espaço.'

Dom Jaime concede entrevista a Lindolfo Júnior. À esquerda, Ivens Lagoano Pacheco
(Reprodução – foto Museu Diocesano)
 

Professor e historiador Reginaldo Benedito Dias:“As principais autoridades de Maringá, o prefeito e o bispo, apoiaram o movimento de 31 de março de 1964, crentes de que era necessário, no clima de polarização ideológica da “guerra fria”, deter a ascensão do comunismo no Brasil”

(Foto de 2001 - Assessoria de Imprensa -Prefeitura Municipal de Maringá)

 

Os principais objetivos da Folha do Norte era propagar a fé cristã e combater o comunismo

(Reprodução)




Jornal Última Hora - agosto de 1961: renúncia de Jânio Quadros da Presidência da Reública e a volta de Jango ao Brasil. Dm Jaime queria fazer da Folha o maior jornal do interior do Brasil para combater o Última Hora, de Samuel Wainer. O azul da capa da Folha do Norte e o nome do jornal em branco com fundo azul não foram simplesmente coincidências

(Reprodução)

 

 

Capítulo 5 - O EMBRIÃO EM 1960

Com a ajuda do padre André Torres, cujo nome consta no expediente das primeiras edições como J. Torres, dom Jaime começou, em 1960, a lançar ações na diocese e nas cidades da região buscando angariar recursos para a fundação da Folha do Norte do Paraná. O arcebispo ressalta que a finalidade era um jornal que não visasse lucros financeiros, mas caso isto ocorresse, eles seriam destinados para as obras do Seminário Diocesano.

 

Os maiores acionistas eram fazendeiros e donos de cerealistas, contumazes contribuintes da Igreja. Também faziam parte desse grupo comerciantes que haviam chegado a Maringá na década de 1940 e que hoje podem ser chamados de emergentes. Nunca foi novidade pessoas abastadas contribuir com a Igreja.


Em Maringá, as contribuições eram ainda mais generosas porque prevalecia acima de tudo a pessoa de dom Jaime, que transmitia respeito, credibilidade e, podendo ser acrescentado, uma certa dose de temor. Se o padre sempre foi uma autoridade em qualquer município, o que dizer de um bispo! E estamos falando de 49 anos atrás.

Ao longo das décadas, dom Jaime esteve presente como figura de proa nos principais acontecimentos de Maringá. Para muitas famílias, seu pedido era cumprido com toda deferência. Além de todos os aspectos que cercavam sua figura, o bispo tinha muitos amigos, que havia conquistado desde que chegou em Maringá, em 1957; amigos que o tem em alta conta até hoje. Passaram 52 anos desde sua chegada e dom Jaime continua tendo ardorosos defensores, prontos para tomar partido quando seu nome vem à baila.

Voltando a 1960, o campo era fértil para a venda das ações. A maioria dos acionistas tinha a consciência de que estava ajudando a Igreja. Nem se pensava em lucro. Era uma ajuda que o comandante da Igreja Católica de Maringá e região havia pedido e ponto final.

Então, foi criada uma sociedade anônima tendo dom Jaime como diretor-presidente. Em nome da diocese não havia ações, mas as primeiras foram adquiridas pelos próprios padres da paróquia, afinal, eles tinham que dar o exemplo. Nos dois anos que antecederam o lançamento do jornal foram negociadas ações, entre ordinárias e preferenciais, com cerca de mil pessoas. Em entrevista à revista NP, em 1962, o próprio padre André confirmou este total. Ele havia chamado o gaúcho Antonio Messias Pimenta, jornalista já falecido, que tinha um texto altamente sofisticado, para organizar o grupo que iria efetuar a venda.

As denominadas ações preferenciais sem direito a voto eram vendidas a Cr$ 1 mil (mil cruzeiros) e cobrado 10% correspondente à taxa de inscrição. Na edição de setembro de 2001 da revista Suma Econômica, de circulação nacional, da Editora Tama Ltda, consta a tabela de reversão de cruzeiro para real. O cruzeiro valia, em 1961, 5 centavos de real. Portanto, a ação de Cr$ 1 mil correspondia naquele ano a R$ 50,00.

Estas ações poderiam ser adquiridas em até dez prestações idênticas representadas por notas promissórias emitidas pelo subscritor em nome da Folha do Norte do Paraná S/A . No rodapé, à esquerda do documento, ia a assinatura de dom Jaime e, à direita, a do padre André, ambos como diretores. No centro, a assinatura do representante autorizado, o agente que havia vendido as ações.

Messias e sua equipe percorreram Maringá, todas as cidades circunscritas à Diocese de Maringá e até o Estado de São Paulo, emitindo o recibo de entrada inicial para os fiéis, uma espécie de dízimo diferenciado. Dom Jaime lamenta que alguns agentes tenham vendido as ações sem explicar corretamente aos compradores o objetivo. “Alguns acionistas foram até enganados. Alguns que colaboravam conosco enganavam alguns acionistas dizendo que eles teriam parte nos lucros do jornal. Então, querendo colaborar, mas também visando lucros, o que era muito justo, também compraram ações. Mas, isso a gente não sabia. Só depois a gente ficou sabendo quando alguns acionistas reclamaram seus direitos e que vimos que fomos ludibriados por alguns desses agentes que vendiam ações.”

No Diário Oficial do Estado do Paraná do dia 29 de setembro de 1961, páginas 11 e 12, consta a publicação da Escritura Pública da Folha do Norte do Paraná Sociedade Anônima. No dia 18 daquele mês e ano, dom Jaime havia registrado a escritura pública da empresa. Além do nome do bispo, constavam os nomes dos padres José Torres, João Phillippi e José Hass Filho. A empresa estava devidamente constituída e registrada um ano depois de iniciada a venda das ações. Para funcionar o jornal, haveria outros trâmites.

Em 10 de outubro de 1961, foi realizada uma assembléia geral extraordinária, quando foi aprovado um aumento do capital social da Folha do Norte do Paraná. Antes, o capital social era de Cr$ 1 milhão, dividido em mil ações ordinárias de Cr$ 1 mil cada. Com o aumento, a sociedade anônima estava autorizada a comercializar até Cr$ 29 milhões, divididos em 14 mil ações ordinárias e 15 mil ações preferenciais de Cr$ 1 mil cada. Dom Jaime afirma que o número de ações vendidas não chegou a 20% do total autorizado. O objetivo era investir Cr$ 100 milhões em que a Folha seria apenas o projeto inicial de uma cadeia regional de órgãos de comunicação.
Na assembléia geral extraordinária realizada no dia 27 de janeiro, com início às 10 horas, na avenida Duque de Caxias, nº 284, compareceram acionistas que representavam mais de dois terços do capital social. Uma tentativa havia sido feita em 16 de dezembro de 1961 para realizar a assembléia que definiria o aumento do capital social, mas não houve quorum. Nesta reunião de janeiro, dom Jaime presidia a assembléia e o padre André secretariava os trabalhos.

Foi o padre André, na condição de diretor da Folha do Norte do Paraná S/A quem havia feito a convocação através do O Jornal de Maringá, nos dias 20, 21, 22 e 23 de janeiro daquele ano e no Diário Oficial do Estado do Paraná, nos dias 20, 22 e 23.

Ficaram definidos na assembléia os mecanismos para a efetivação do aumento de capital. As ações foram distribuídas para 743 associados de Maringá e outras 42 cidades. A chamada de capital é que deu um reforço no caixa para a instalação da Folha. Os agentes subordinados ao padre André teriam um grande trabalho novamente. Teriam que entrar em contato com os acionistas para receber parceladamente a chamada de capital. Dos Cr$ 29 milhões, dom Jaime afirma que o recebimento não chegou a Cr$ 6 milhões. Se os acionistas pagaram mais do que este valor, não se sabe. Só há desconfiança.

A cópia da ata da assembléia geral extraordinária realizada em 27 de janeiro de 1962 e os nomes dos 743 acionistas, constando o valor adquirido, nacionalidade, profissão, estado civil e cidade onde residiam, foram registrados no 2º Cartório de Imóveis, títulos, Documentos e Pessoas Jurídicas de Maringá. Os primeiros acionistas eram da Diocese
(Fac-símile)

 

As ações começaram a ser negociadas em 1960
(Fac-símile)

 

 

 

O anúncio informava que era o maior jornal do Paraná

 

Capítulo 6 - A LOCOMOTIVA

Com os primeiros recursos advindos da venda inicial das ações, o diretor-presidente adquiriu em 1961 os primeiros equipamentos em São Paulo. A maior parte das máquinas, inclusive a rotativa, era de segunda mão, mas bem superior aos equipamentos que até então eram utilizados pelos jornais de Maringá e da região.

A chegada das máquinas foi um acontecimento para quem militava na imprensa, um grande avanço tecnológico, isto porque O Jornal de Maringá e a Folha de Londrina imprimiam em planas e a Folha do Norte iria ter as primeiras rotativas do interior, sendo também a pioneira a trabalhar em duas cores: o azul e o preto. A qualidade gráfica possibilitaria ao jornal do bispo ser comparado aos jornais curitibanos e de São Paulo.

Jorge Fregadolli, que só viria a trabalhar na Folha em 1967, como vendedor de propaganda, lembra com saudade da impressora, que, pelo barulho, lembrava uma locomotiva: “Era uma máquina violenta, parecia uma locomotiva, impressora daquelas antigas, mais de 50 anos de existência, mas ainda de ótima qualidade. Aquilo tinha uma velocidade impressionante. Já naquele tempo podia tirar mil exemplares por hora, até 2 mil. Chegamos a tirar até 3 mil pela velocidade da máquina. Ela chegou a rodar 16 páginas simultâneas. Eu não me lembro o nome dela. Faz tanto tempo... Tinha uma perfeição para imprimir que era fora de série. A impressão dela batia a Folha de Londrina.”

 

Capítulo 7 - A MONTAGEM

Entre julho e agosto de 1962, dom Jaime e os padres da Diocese de Maringá tinham outras atribuições além das missas e o atendimento aos fiéis. A venda de ações seguia de vento em popa, com Pimenta no comando da equipe. Agora, a preocupação era formar a equipe que iria trabalhar no escritório, na redação e nas máquinas.

A sede seria no prédio de madeira, na avenida Duque de Caxias, nº 284, com saída para a rua Néo Alves Martins, onde hoje funciona a agência do Banespa, que passou a ser Santander. Uma extensa área, formando um “L”, que abrigava o setor administrativo, redação e oficinas, nesta ordem. Há controvérsias quanto ao proprietário do imóvel. Dom Jaime diz não se lembrar quem era o proprietário. Joaquim Dutra, que arrendou o jornal em 1964 afirma que mensalmente pagava, além do arrendamento, o aluguel para a Diocese de Maringá.

Na Prefeitura de Maringá, o tempo e a desorganização se encarregaram de consumir os documentos de 40 anos atrás dos imóveis da quadra 28 da zona 1, onde se localizava a Folha do Norte. O imóvel já estava sob a responsabilidade de dom Jaime bem antes da abertura do jornal. Como prova foi a assembléia geral realizada no dia 27 de janeiro de 1962, na Duque de Caxias, nº 284.

Para fazer funcionar o melhor jornal do interior era necessário bem mais do que rotativas de última geração. O material humano era escasso e dom Jaime não queria profissionais do O Jornal de Maringá. Não apenas para não criar atrito com o concorrente, mas principalmente porque o intuito era fazer da Folha uma grande novidade, uma inovação profissional e material na imprensa da cidade.

Profissionais de peso não topariam sair das capitais para se aventurar no que era, até então, um projeto de publicação. Por isso, os primeiros trabalhadores da Folha do Norte foram recrutados, em sua maioria, na cidade. Além de padres da diocese, como o padre Novaes, dom Jaime buscou radialistas que tinham programas na Cultura e Difusora e escolheu estudantes do curso científico. Foi dessa maneira que Frank Silva e Tatá Cabral, repórteres da Cultura, e Borba Filho, comentarista esportivo da Difusora, acabaram tendo o primeiro contato com o jornal. E da mesma forma os estudantes José Aparecido Borges, hoje aposentado da Câmara Municipal de Maringá, Nilton Pereira, juiz de direito, considerado um brilhante editorialista, e João Amaro de Faria, advogado que já foi procurador jurídico da Câmara Municipal.

Como fotógrafo, foi contratado Reinaldo de Almeida César, que faleceu em setembro de 2001, em Curitiba. O gosto pela fotografia o tornou um empresário bem sucedido, sendo dono da rede de Fotos Íris. Gumercindo Carniel, que nunca havia visto uma impressora na vida, ficou responsável para chefiar a equipe que trabalharia nos maquinários.

Dezenas de garotos iriam fazer a entrega do jornal nas residências e na venda avulsa. Nas primeiras edições, a Folha publicou o seguinte anúncio: “Seja repórter amador da Folha do Norte do Paraná. Telefone para 2904 e 2832”.

O diretor superintendente era J. Torres, que vinha a ser o padre André. Compreensível a duplicidade de nomes porque, em algumas congregações, o sacerdote acrescenta o nome de algum apóstolo ao seu ou simplesmente retira o nome de nascimento. Padre André era o braço direito de dom Jaime, era o financeiro da Folha do Norte. Como diretor responsável foi chamado Hugo Mendonça de Sant’ana.

Na região, a Folha se estruturou de uma maneira bastante sólida. As paróquias pertencentes à Diocese de Maringá ficaram encarregadas da distribuição dos jornais. Para garantir a entrega, além dos ônibus de passageiros, foram adquiridos cinco jipes, número que triplicou em menos de dois anos. Somente o jipe conseguia enfrentar a precariedade das estradas. A lama e os buracos não impediriam que a Folha estendesse seus tentáculos para cerca de cem cidades, inclusive na divisa com o Mato Grosso.

A venda de anúncios era feita por uma equipe comandada pelo padre André. Se, para ser inaugurada, a Folha dependesse do departamento comercial para vender assinaturas, ficaria apenas no sonho de Dom Jaime. Naquela época, o escandaloso número de analfabetos somado ao avassalador poder do rádio, inviabilizava qualquer publicação. Somente através das ações avalizadas pela Diocese foi possível colocar o jornal em funcionamento.

A rotativa de segunda mão, adquirida em São Paulo
(Arquivo pessoal de Gumercindo Carniel)

 

Neste prédio, na avenida Duque de Caxias, funcionava o setor administrativo da Folha
( Tabajara Marques)

Onde hoje é a agência do Santander, na rua Néo Alves Martins, ficavam as oficinas
(Tabajara Marques)

 

Capítulo 8 - OS TRÂMITES

No dia 1º de setembro de 1962, dom Jaime deu entrada nos papéis da empresa no Cartório de Registro de Imóveis, Títulos, Documentos e Pessoas Jurídicas – 2ª Circunscrição. Arquivada sob o número 130, pasta número 5, a empresa foi registrada como Editora Folha do Norte do Paraná S/A, sendo matriculada a oficina impressora e o jornal Folha do Norte do Paraná.

Para obter o registro, o bispo teve que seguir o seguinte trâmite: declaração do nome, nacionalidade, idade e residência do redator principal, do proprietário, dos redatores e do gerente; prova de ser o redator principal brasileiro nato; folha corrida do redator principal, dos redatores e do gerente; declaração do título do jornal, sede da redação, administração e oficinas impressoras próprias com designação do respectivo proprietário; prova de ter realizado locação de serviços com seu pessoal e de possuir o seu capital suficiente para garantir o pagamento desses serviços, pelo menos durante um trimestre; e um exemplar dos respectivos estatutos.

O trabalho, realizado em agosto, rendeu 42 páginas devidamente fotocopiadas e registradas no Tabelionato Pimpão, em Maringá, que tinha como tabelião titular Vespertino F. Pimpão e como oficial maior Ernesto von Edihardt; na Escrivania do Cível, Comércio e Anexos (Cartório do 1º Ofício), tendo Diógenes Pinto como escrivão; Cartório do Distribuidor, Contador, Partidor e Depositário Judicial, do titular Bolivar Dutra de Oliveira, que emitia documentos da 1ª e 2ª Vara da Comarca de Maringá; Cartório do 2º Ofício Criminal, do escrivão Paulo Vieira de Camargo; 7º Tabelionato de Curitiba, tendo Renato Volpi como tabelião e Kerlei José Volpe como oficial maior; e Junta Comercial do Estado do Paraná.

Dom Jaime teve que emitir declarações confirmando o vínculo empregatício com a Folha do Norte de seis pessoas, e entrar com pedido de atestado de boa conduta na Chefatura de Polícia e certidões negativas no Juízo de Direito da 1ª e 2ª Vara da Comarca de Maringá, dele e de cinco membros, supostamente funcionários. Ainda foram anexadas à documentação, certidão do Departamento Nacional de Propriedade Industrial e cópia da ata da Assembléia Geral Extraordinária realizada em 27 de janeiro de 1962 com os nomes de todos os acionistas.

Estatuto social da empresa Folha do Norte do Paraná S/A

(Fac-símile)

 

Capítulo 9 - OS JORNALISTAS DOM JAIME E ADRIANO VALENTE

Na declaração assinada por dom Jaime em 17 de agosto de 1962, já com o timbre da Folha do Norte do Paraná S/A, ele informou que Emilio Zola Florenzano, Adriano Valente, José Torres, Hugo Mendonça Sant’ana, Massao Shiraishi e Erwin Pröhlic eram funcionários da editora atuando como auxiliares da administração.

No pedido de atestado de boa conduta, a Chefatura de Polícia informou que nada havia que os desabonassem. Nas certidões negativas expedidas pelo Juízo de Direito da Comarca de Maringá, assinadas por Bolivar Dutra de Oliveira e Oscar Gonçalves Severiano, não havia nenhum processo civil ou criminal na comarca contra dom Jaime e os funcionários da Folha.

Em todas as solicitações e respostas, inclusive na declaração de dom Jaime, os membros são citados como jornalistas. O próprio bispo consta como jornalista. Excluindo Sant’ana, que está no expediente das primeiras edições como diretor responsável, e José Torres, o padré André, que dirigia o jornal, não se tem conhecimento de que os demais chegaram a trabalhar na Folha, muito menos como jornalistas.

Várias das pessoas ouvidas, que trabalharam no início da Folha, só se lembram de José Torres. O nome mais conhecido é o do advogado Adriano Valente, que foi prefeito de Maringá de 1968 a 1972. Valente confirmou sua amizade com dom Jaime, mas informou que não chegou a escrever para a Folha do Norte e para nenhum outro jornal.

Do padre André e Hugo Sant’ana não se têm notícias, assim como dos pioneiros Florenzano, Prölich e Shiraishi. Contatos foram mantidos com famílias de sobrenome Shiraishi, mas o nome Massao é desconhecido para elas. Estes nomes não aparecem na lista de acionistas enviada com outros documentos ao Registro de Imóveis, Títulos, Documentos e Pessoas Jurídicas.

 

 

Capítulo 10 - A PRIMEIRA EDIÇÃO

Alguns dias antes do lançamento da Folha, que oficialmente ocorreu no dia 25 de setembro de 1962, foi publicada uma edição experimental. Sem a data e o expediente. Com oito colunas, como eram os jornais da época, títulos com caixa alta na primeira letra de cada palavra quando não era colocado todo o título com letras maiúsculas. E a novidade no interior do Estado do Paraná: a cor azul em alguns títulos da capa e da última página, a 8, do esporte.

Espertamente, a direção colocou ao lado da manchete o aviso “fase experimental”, que seria publicado durante quase um mês. Havia uma grande expectativa em torno do lançamen

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Enviar Comentário


“Quilômetros de papel e rios de tinta imprimem o futebol ao longo dos anos, atravessando gerações. Na era digital, as Imagens avançam pelos céus, rompem todas as fronteiras. As vozes do amor ao futebol ecoam pelo grande campo que é o mundo. Agora, em algum lugar, alguém chuta uma bola. A paixão mais documentada da história não para. O jogo nunca termina.”

(Antonio Roberto de Paula)

 Rua Pioneiro Domingos Salgueiro, 1415- sobreloja

 (44) 3029-9674

Museu Esportivo © 2016 Todos os diretos reservados

Logo Ingá Digital