Últimas Publicações / A triste história do zagueiro Ari Ercílio, do Fluminense.

Uma oração tricolor para Ari Ercílio

Era uma segunda-feira. A data era o mesmo dia 20 de novembro. O ano era 1972. Há exatos 40 anos.  No domingo dia 19, o Fluminense tinha jogado com o Botafogo e perdido a partida por 2 x 1. O gol do Flu foi marcado por Silveira. Ari Ercilio, zagueiro-central tricolor ficou no banco de reservas. A segunda-feira, dia 20, como de hábito, era dia de folga para os jogadores. 

O jogador do Fluminense Ari Ercílio foi pescar em companhia de sua mulher, Helena Peres Barbosa, na Gruta da Imprensa. Apanharam o carro do craque, um DKW e resolveram dar uma volta por São Conrado onde pensavam jantar.

Ari Ercílio tinha paixão por pesca. Sempre que podia ia pescar. Ora com amigos, ora com a mulher. Seus locais preferidos prediletos eram: Barra, São Conrado e Recreio dos Bandeirantes. Informado de que na Gruta da Imprensa “dava” peixes enormes ficou tentado a pescar no lugar. Por volta do meio-dia saiu de casa, acompanhado de sua esposa Helena. Dirigiu-se até a casa de Artime, seu grande amigo e companheiro do Fluminense. Ari foi convidar Artime para a pescaria. Mas o argentino recusou dizendo que estava indisposto.     

Ao chegar à Gruta da Imprensa, o craque tricolor resolveu estacionar o carro e tentar uma rápida pescaria. Levava o caniço e procurava uma posição favorável numa rocha em virtude das chuvas, estava bastante escorregadia. Seriam, aproximadamente, 17h30m, quando Ari Ercílio possivelmente para conseguir melhor equilíbrio, resolveu mudar de posição. 

Mas foi infeliz quando tentava atingir as pedras. Escorregou e caiu no mar. Ainda tentou nadar em direção as pedras, por duas vezes tentando agarrá-las. A fúria do mar arrastava o craque. As fortes ondas o empurraram contra uma rocha. Depois de bater com a cabeça na pedra, Ari Ercílio sumiu ante o desespero de sua mulher e do guardador de automóveis, João Gomes. Helena, desesperada, a tudo assistia impotente, gritando por socorro.

Apenas João Gomes da Silva, 63 anos, estava ao lado da mulher de Ari Ercílio. Ele tentou salvá-lo com gritos que indicavam ao jogador, nos poucos momentos que tentou segurar nas pedras, para que nadasse para fora. Segundo João Gomes, o zagueiro tricolor ficou por meia hora lutando contra as águas, na tentativa de voltar. Triste, o humilde guardador de carros declarou ao Jornal dos Sports sobre o instante em que Ari Ercílio tentou segurar nas pedras:

 – Não levou muito tempo, depois do escorregão, para que ele afundasse de vez. Depois de deslizar, quando já tinha alcançado o ponto de armação dos molinetes, foi direto para as águas. Eu e a mulher gritamos para os motoristas, mas ninguém parou. Vi quando por duas vezes ele tentou pegar na pedra, desesperado. Na terceira tentativa bateu com a cabeça e não apareceu mais.

Só após uma hora do ocorrido, que alguém se lembrou de pedir a presença dos bombeiros do Quartel do Humaitá. Horas depois, chegou Paulo Amaral, ex-técnico do Fluminense, que por não saber direito dos acontecimentos ainda tentou descer no local apesar da escuridão e da chuva. Mas Paulo Amaral foi contido pelos presentes. Paulo Amaral é considerado o pioneiro da preparação física no futebol do Brasil. Paulo Amaral era o técnico da equipe tricolor quando Ari Ercílio chegou em Álvaro Chaves. Bombeiros do Humaitá e duas lanchas do Corpo Marítimo de Salvamento vasculharam toda a área da Gruta da Imprensa, à procura do corpo.

Para o local do acidente se dirigiram vários dirigentes e funcionários do Fluminense, entre eles, Ailton Machado, Vice-Presidente de Futebol; Zezé Moreira, Diretor Técnico de Futebol; Emilson Peçanha, coordenador; o médico Durval Valente e o jogador Artime que chorava copiosamente, inconsolável com a perda do companheiro.  Todos procuravam confortar a esposa do jogador, acompanhando-a mais tarde, à residência do casal, à Rua Barão da Torre, nº 82, onde permaneceram à espera de notícias. A esposa de Ari Ercílio, Helena, ficou o tempo todo em companhia de Maria Cristina, esposa de Artime, as duas eram grandes amigas.

Já era noite fechada e os bombeiros desistiram de continuar as buscas, reiniciando os trabalhos pela manhã do dia seguinte, tendo em vista que o local era perigoso. O trânsito no local tinha ficado congestionado, obrigando a intervenção de uma rádio patrulha, para normalizar o fluxo de tráfego.

As buscas foram reiniciadas pelos bombeiros do Humaitá e pela turma do Salvamar na manhã de terça-feira. Helena estava presente, como o Vice-Presidente de Futebol do Fluminense Ailton Machado, Zezé Moreira, o médico Durval Valente, o Drº José Rizzo, o diretor Hugo Molinaro, o professor José Lins, e os jogadores tricolores Cafuringa, Didi, Toninho, Silveira, Jair, Félix, Mickey e Jorge Vitório. 

Quando a notícia chegou à sede do Fluminense todos ficaram muito abatidos. Na expressão de uns, nas lágrimas de outros, a tristeza no Flu era geral. Na terça-feira, dia 21, em que os jogadores se reapresentaram após a folga da segunda-feira, o treino, em sua maior parte, foi realizado no mais completo silêncio. Todos concordavam num ponto: Ari Ercílio era um jogador de brios, homem de caráter e amigo de todas as horas. Muitos até se prontificaram a procurar o corpo.

Ari Ercílio tinha 31 anos. O atleta tricolor nasceu em 18 de agosto de 1941, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Foi descoberto para o futebol nos juvenis do Internacional em 1958. Nas categorias de base foi sempre um colecionador de títulos, tornando-se campeão gaúcho juvenil de 1959. Em 1960, o Internacional encontrava-se em crise financeira e vários juvenis foram promovidos. Dentre eles, estavam Ari Ercílio, Cláudio e Flávio Minuano, que mais tarde jogaria no Corinthians, Seleção Brasileira e Fluminense.

Promovido ao time de profissionais sagrou-se campeão gaúcho de 1961, jogando ao lado de Brito (campeão da Copa do Mundo de 1970), emprestado à época pelo Vasco ao Internacional. Depois foi cedido ao Corinthians, em 1964. Em 1965, retornando ao futebol gaúcho e assinando contrato com o Novo Hamburgo (na época chamado de Floriano). Dali foi para o Grêmio. Apesar de ter começado no Internacional, foi no Grêmio que Ari Ercílio conseguiu seus melhores momentos no futebol.  Contratado pelo Grêmio em março de 1967, foi campeão gaúcho neste ano e em 1968. Em 1968, o Grêmio conquistava o heptacampeonato gaúcho. Em 1966, Ari Ercílio defendeu o nome do Brasil, representado por uma seleção gaúcha, contra o Chile, conquistando a Taça O'Higgins.

A esposa de Ari Ercílio, Helena, ainda na terça-feira, dia 21, fez as duas filhas embarcarem para Porto Alegre. Suas filhas, Andréia, de 10 anos e Adriana, de 7 anos, viajaram com a avó para o Rio Grande do Sul. As duas filhas eram muito agarradas com o pai. Quando a tragédia foi anunciada na televisão, a filha menor do zagueiro tricolor estava na casa de um vizinho e ouviu a notícia sobre o acidente. No mesmo instante correu para casa comunicando à avó que o pai “tinha dor de dente”, não entendendo direito a notícia.

Enquanto isso, o Vice-Presidente de Futebol do Fluminense, Ailton Machado, estava arrasado. Ele tinha passado a noite sem dormir no local do acidente. Apesar de muito triste e cansado, Ailton Machado declarou que o Fluminense prestaria toda a assistência a família de Ari Ercílio. Seu contrato terminaria a 31 de maio de 1974 e seria cumprido pelo Clube até o fim com sua mulher recebendo os Cr$ 10 mil mensais.

Já o médico do Fluminense, José Rizzo, estava inconsolável. Mostrou uma carta que recebeu do médico do Grêmio, logo que o Fluminense contratou por empréstimo Ari Ercílio com os maiores elogios ao jogador. Quando releu a carta, chorou. 

Quando terminou o empréstimo, Ari Ercílio esteve para voltar para o Rio Grande do Sul, sua terra natal. Mas o jogador foi comprado e assinou por dois anos. Ari Ercílio estreou contra o Botafogo, com uma vitória por 1 x 0, com gol de Jeremias, aos 43 minutos do segundo tempo. Sua última partida foi contra a Portuguesa, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro, quando ele entrou no segundo tempo e o jogo terminou empatado em 2 x 2. No domingo, dia 19 de novembro, no jogo com o Botafogo, Ari Ercílio ficou no banco de reservas, mas o técnico Pinheiro pensava em colocá-lo pelo menos em um tempo devido a boa forma que atravessava. No banco com Ari estavam: Vitório, Adilton, Adilson, Zé Roberto e Mickey.

Ari Ercílio nunca desanimou com sua situação. Nunca reclamou ou fez campanha contra outro jogador. Continuou treinando com dedicação, a espera da oportunidade que, segundo o treinador Pinheiro não ia demorar. Bom companheiro, nunca criou caso com o Clube, nem com qualquer outro jogador.

Na véspera do jogo com o Botafogo, do dia 19, Ari Ercílio esteve com o massagista João de Deus do Fluminense, fazendo aplicação de ultra-som e fez algumas confidências. Ari disse que estava com saudades de sua terra onde tinha sua vida regularizada. Revelou ainda que seus negócios estavam sendo administrados por seu irmão “que era muito legal”.

O jogador deixava para sua família um seguro de vida de Cr$ 40 mil, feito na Companhia Boa Vista. Ari Ercílio em doze anos como profissional conseguiu ganhar um bom dinheiro com o futebol (para os padrões da época). Possuía uma frota de táxis, uma cãs na praia e três apartamentos, tudo em Porto Alegre. Ari confessou que só veio para o Rio de Janeiro, devido a sua paixão pelo futebol e pelo Fluminense, que considerava um dos maiores clubes do mundo.

O argentino Luis Artime tinha participado da Copa do Mundo de 1966 fazendo três gols pela seleção argentina. Artime era goleador e possuía vários títulos em sua carreira. Dentre eles, o Roberto Gomes Pedrosa (o Brasileirão da época) de 1969 com o Palmeiras, a Taça Libertadores da América e o Campeonato Mundial de Clubes de 1971 com o Nacional do Uruguai.

Artime considerava Ari Ercílio seu melhor amigo no Fluminense. Nos dias em que esteve mal no Clube, o zagueiro tricolor procurava ajudá-lo em tudo. Artime ficou abalado psicologicamente e nem foi treinar na terça-feira, dia seguinte ao acidente. A diretoria do Flu entendeu sua atitude e a considerou normal. Os dois jogadores – Ari Ercílio e Artime – chegaram ao Fluminense no mesmo dia. Os dois chegaram juntos ao Aeroporto do Galeão às 23h30m, na terça-feira, dia 9 de maio de 1972. Uma pequena multidão de torcedores, com bandeiras, faixas e muito pó-de-arroz, estavam no local para receber calorosamente os novos craques tricolores.

Ari Ercílio e Artime, logo após a chegada em maio, foram hospedados no Hotel Plaza. Ari Ercílio, em um de seus primeiros pronunciamentos no Rio, declarou ao Jornal dos Sports:

 – O Fluminense além do prestígio que tem, possui um bom time e pode levantar qualquer título. Se isso acontecer e eu estiver jogando, acho que serei contratado em definitivo, o que desejo muito. Sobretudo porque a torcida que foi esperar os reforços no Galeão, me fez uma recepção inesperada. E isso me influenciou mais ainda. Agora só penso em permanecer no Fluminense.

Ainda na procura pelo corpo do craque tricolor, os dois homens-rãs utilizados durante as buscas mergulharam inúmeras vezes em diversos locais e nada encontraram. O médico Durval Valente, do Fluminense, explicava que no caso de não ser encontrado o corpo, a viúva teria que esperar dois anos para requerer qualquer tipo de benefício, tempo este estabelecido por lei.

Na quarta-feira, dia 22, pela manhã, as buscas contariam com a colaboração de Lino Santos Filho, mais conhecido como “Lino Salva-Vidas”. Todos os pescadores do local foram unânimes em afirmar que se Lino estivesse presente no momento em que o Ari Ercílio escorregou e caiu no mar, teria evitado o ocorrido, devido a sua habilidade e conhecimento daquela região. Lino já tinha resgatado com vida várias pessoas no mesmo local. Lino “Salva-Vidas” o mais destemido mergulhador da região, vasculhou o mar por mais de oito horas, na quarta-feira, mas sem sucesso.

Os jogadores do Fluminense sentiram muito a morte do companheiro de equipe. Alguns se pronunciaram ao jornal O Globo na quarta-feira, dia 22 de novembro de 1972. Marco Antonio falou:

 – Ele tinha o maior carinho com aquele molinete. Foi comprado na Espanha e ele me chamou para ir com ele na loja. Só não entendo como foi pescar naquele lugar.

Abel (técnico do Fluminense campeão brasileiro de 2012) havia combinado de ir pescar com Ari Ercílio naquela quarta-feira:

 – Havia muito tempo ele vinha me convidando, e nós combinamos para amanhã (hoje).

Mickey contou que Ari Ercílio o convidou para pescar no dia em que morreu:

 – Mas eu tinha muita coisa a fazer e não pude ir. O pior disso tudo é que o terceiro filho estava a caminho e ele estava muito contente por isso.

Na quinta-feira, dia 23 de novembro, o Fluminense jogaria com o Internacional de Porto Alegre, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro. Era o jogo do primeiro (Internacional) e do último clube (Fluminense) de Ari Ercílio. Era sem dúvida, o jogo da dor, da consternação, da lágrima e da saudade. Antes da partida, os 11.113 pagantes homenagearam o jogador com um minuto de silêncio. O Fluminense que estava de luto jogou com: Félix, Toninho, Silveira, Assis e Marco Antonio; Denílson (Abel), Didi e Rubens Galaxe; Jair (Adilson), Adilton e Lula.

Os torcedores que estavam tristes com todos os acontecimentos, ainda saíram frustrados do Maracanã com o placar de 0 x 0. Assistiram a um jogo muito ruim.  O atacante Artime estava nos planos do técnico Pinheiro para jogar contra o Internacional. Mas como não havia treinado e estava muito abatido com a morte de Ari Ercílio, o argentino ficou de fora da partida.

Foi apenas na sexta-feira, dia 24 de novembro, quando o jovem “Lino Salva-Vidas” localizou na praia do Pepino e trouxe para a areia o corpo de Ari Ercílio. Mickey, Oliveira e Artime, presentes no local, não tiveram como conter as lágrimas. Eram dois quilômetros do local onde o zagueiro sofreu a queda. Era por volta das 13h20m. Eram decorridas cem horas do acidente. A bermuda azul Lee e a camisa também azul, junto com os documentos e Cr$ 65,00 na carteira encharcada, confirmavam o encontro do corpo de Ari Ercílio.

Lino “Salva-Vidas” também era conhecido na Rocinha – local em que morava – como “Anjo Bom do Mar”. Lino tinha 20 anos e morava na Rua Dois, 339, na Estrada da Gávea. Lino ao ser perguntado pelo jornal O Dia se tinha sentido muito a morte de Ari Arcílio, respondeu:

 – Claro que senti. Primeiro porque sou Fluminense e o admirava como jogador. Era um zagueiro de ótima qualidade. Segundo porque sinto sempre a morte de uma pessoa seja ela quem for. Eu queria achar o corpo para que ele pudesse ser sepultado cristãmente. Cumpri o que prometi a mim mesmo.

(Publicado no www.cidadaofluminense.blogspot.com, dia 20 de novembro de 2012)

Autor: Eduardo Coelho, professor de História e Geografia e ambientalista. Um cidadão apaixonado pelo Brasil, pelo Rio de Janeiro e pelo Fluminense

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No dia 20 de novembro de 2012, Eduardo Coelho reproduziu em seu blog uma crônica de Nelson Rodrigues sobre Ari Ercílio: 

O imortal escritor e jornalista Nelson Rodrigues, escreveu o seu relato após tomar conhecimento da morte de Ari Ercílio. Os escritos do gênio tricolor foram publicados em sua coluna “À sombra das chuteiras imortais”, do jornal O Globo, no dia 22 de novembro de 1972. Veja abaixo o texto de Nelson Rodrigues sobre Ari Ercílio:

1 – Amigos, só conhecia Ari Ercílio de “Mário Filho”. No passado, o campo pequeno criava uma intimidade entre o torcedor e o espetáculo. Era uma relação muito mais intensa, uma convivência muito mais dramática. O torcedor sentia-se como um jogador a mais, dando botinadas em todas as direções. Mas o ex-Maracanã inaugurou  uma nova distância entre o público e o espetáculo.

2 – E havia entre mim e Ari Ercílio, a separar-nos, essa distância imensa. Nunca lhe apertei a mão, nunca um “oba” nos ligou e ele seria para mim quase um desconhecido. Mas aí é que está: - o sentimento pode contrariar todas as leis da óptica. Eu gostava do gaúcho e, por ser gaúcho, dei-lhe o nome de “Domingos dos Pampas”. Várias vezes, o Marcelo Soares de Moura, em pleno fogo das batalhas, dizia: – Boa do “Domingos dos Pampas”. E o Miguel Lins era outro. Várias vezes, disse-me: – “Bacana essa do Domingos dos Pampas”. E esse “Domingos dos Pampas” criou, entre mim e ele, uma boa, nobilíssima amizade. Apesar da distância do “M ário Filho”, e da miopia que me persegue, tínhamos uma proximidade amiga.

3 – Até que, anteontem, ouço na televisão: – “Morreu Ari Ercílio”. A chamada morte natural não agride com essa violência. Há a doença, a história da doença, vai preparando não só o próprio doente, mas os outros. Há uma progressão compassiva. O pior é quando tudo acontece de repente. A pessoa está viva, tem um vasto futuro, criará seus filhos e, depois, os filhos dos seus filhos. E, de repente, a queda.

4 – Ari estava mais vivo do que nunca. Já voltava. Mas resolveu dar mais dois ou três passos. E veio a queda. Seu corpo desliza, rola, mergulha. Por que pescar ali, onde o pescador está a um milímetro da vertigem, olhando cara a cara o precipício? Outros já morreram naquele local ou nas proximidades. Lembro-me de Jackson Figueredo, que pescava também, caiu e cujo corpo foi aparecer a milhas e milhas de distância.

5 – Vejam vocês: – eu não ia escrever sobre Ari Ercílio. E explico: – não há nada mais antiliterário do que o verdadeiro sentimento. Sim, o verdadeiro sentimento escreve mal, muito mal. Quando uma crônica de saudade sai perfeita, desconfiemos da saudade: Ia dedicar a Ari Ercílio duas linhas, de passagem. E já estou chegando ao fim do meu espaço.

6 – Eis o que eu queria dizer: – a morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. Vocês imaginem que Ari Ercílio tinha feito um seguro de vida de não sei quantos milhões. Segundo me informa o Denis Menezes, a senhora do grande zagueiro ouvira do seu marido este vaticínio: – “Eu não emplaco 73”. Era já o processo da morte.

7 – Outra coisa impressionante: – Ari Ercílio estava pescando num lugar sem problemas: Nisto passa alguém e diz-lhe: – “Não adianta, companheiro. Ai não dá nada. Peixe é ali. Olha: – ali”. Era a morte que o chamava. E, segundo Denis Menezes, o grande jogador chamou a esposa para descer. Ela não quis.

8 – Ele queria terminar sua carreira no Fluminense. Terminou a carreira e a vida. Há entre Ari Ercílio e o Fluminense um vínculo mais forte que a vida e do que a morte. Amém.       

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(Antonio Roberto de Paula)

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